domingo, março 25, 2012

Retratos

Tenho medo
de olhar
a cilada muda
dos retratos.

O tempo parado
enche tudo
de estátuas.

Não há ventos,
nem vida.

Só o instante
plástico e inconjugável,
encarcerado
na folha de papel...


Tempo

Quatro olhos
miram-se
no espelho
do meu quarto.

Aquele vidro
não guarda
o que passou.

Há mais em mim,
além deste rosto
sazonado
que me anuncia
aonde eu vou.

O passado
é que esculpiu
não só este perfil
mas este ser
exclusivo.


Passado

A árvore
é recidiva
da vida.

Seu esplendor
indizível
de tanta verde
surpresa;
sua seiva calada
que guarda
uma senha secreta;
a frescura do
milagre que sua
sombra
resume...

Estava tudo previsto
na semente,
ponto minúsculo
e improvável!


Presente

A árvore,
mesmo devagar,
faz certo esforço
vital:
rompe
o sono da semente;
vence
a força da terra;
estende
o vigor do seu tronco;
espalha
a beleza das folhas;
opera
a prospecção das raízes.

Além da semente,
é a ação
que empreende
para fazer-se
o que é.


Futuro

O presente
é o código
do corpo,
um intervalo
de mistérios...

E o amor
é um triz
do futuro
em gesto,
pensado
duplamente
e inaugurado
na beira
do abismo
do sentido.

8 Comments:

At 12:46 AM, Blogger tocadaspacas said...

Belos poemas. Para você, Flávia, isto que vai abaixo:

“Todo homem terá talvez sentido essa espécie de pesar, senão terror, ao ver como o mundo e sua história se mostram enredados num inelutável movimento que se amplia sempre mais e que parece modificar, para fins cada vez mais grosseiros, apenas suas manifestações visíveis. Esse mundo visível é o que é, e nossa ação sobre ele não poderá nunca transformá-lo em outro. Sonhamos então, nostálgicos, com um universo em que o homem, em vez de agir com tanta fúria sobre a aparência visível, se dedicasse a desfazer-se dessa aparência, não somente recusando qualquer ação sobre ela, mas desnudando-se o bastante para descobrir esse lugar secreto, dentro de nós mesmos, a partir do qual seria possível uma aventura humana de todo diferente. Mais precisamente moral, sem dúvida. Mas, afinal, é talvez a essa condição humana, a esse agenciamento inelutável, que devemos a nostalgia de uma civilização que procuraria se aventurar fora do que é mensurável. É a obra de Giacometti, creio, que torna nosso universo ainda mais insuportável, pois parece que esse artista soube afastar o que perturbava o seu olhar para descobrir o que restará do homem quando as máscaras forem retiradas. Mas a Giacometti talvez tivesse sido igualmente necessária essa condição humana a nós imposta, para que sua nostalgia se tornasse tão grande a ponto de lhe dar força para lograr sua busca. Seja como for, toda a sua obra me parece ser essa procura, visando não só o homem, mas também não importa o quê, o mais banal dos objetos. E quando consegue despojar o objeto, ou o ser que escolheu, de suas máscaras utilitárias, a imagem que nos dá é magnífica. Recompensa merecida, mas previsível.

A beleza tem apenas uma origem: aferida, singular, diferente para cada um, oculta ou visível, que o indivíduo preserva e para onde se retira quando quer deixar o mundo para uma solidão temporária, porém profunda. Há, portanto, uma diferença imensa entre essa arte e o que chamamos miserabilismo. A arte de Giacometti parece querer descobrir essa ferida secreta de tod ser e mesmo de todas as coisas, para que ela os ilumine.”

(Jean Genet, em O ATELIÊ DE GIACOMETTI, Cosac & Naify, 2001)

 
At 1:39 AM, Blogger SuzanaPacheco said...

Flávia, que lindo...Sua sensibilidade sempre me impressiona e emociona. Tenho um pedido especial para fazer: fui sua aluna em 2010, lá no GAME. Suas aulas são fantásticas e com você eu REALMENTE aprendi a escrever redações. Hoje estou estudando na UNCISAL(estadual de Alagoas) e quero participar de um projeto chamado MedEnsina, que é um cursinho pré-vestibular gratuito, cujas aulas são dadas pelos alunos da própria Universidade. Quero muito participar desse projeto e resolvi me arriscar: vou dar aulas de redação. Queria muito que, se você pudesse, mandasse algum material seu ou alguma dica de metodologia e construção de raciocínio, acho que precisarei muito disso. Meu e-mail é su_liberal@hotmail.com. Desde já agradeço. Um grande abraço, de uma ex-aluna fascinada por sua forma de ensinar e de levar a vida, Suzana Pacheco Liberal

 
At 11:49 AM, Blogger Igor Dresjan said...

Poe enquanto foi o melhor que li...
Tbm me inspirou muito!!!
etá postei no meu blog tbm^^

www.igor-mundopoesia.blogspou.com

 
At 7:15 PM, Anonymous Anônimo said...

Nossa Flávia ADOREI seus textos eles me deram muita inspiração. Pois soou uma jovem escritora que começou a pouco tempo graças a minha Professora Consuelo Brito aqui de Caruaru com o seu trabalho sobre romantismo. Bom ela que me indicou seu blog e eu gostei muito mesmo me deu inspiração para continuar escrevendo

 
At 7:19 PM, Anonymous Anônimo said...

Haa esqueci meeeu nome é Mykaella Nathalia

 
At 7:20 PM, Anonymous yago yann said...

Amei seus textos, são lindos de mais. Uma otima indicação da professora Consuêlo de Caruaru. Me deram muita inspiração. Parabéns!

 
At 7:37 PM, Anonymous Anônimo said...

Lindosssssssssss, parabéns, apesar de duro, mas lindos, vc é um talento.Te vi em tua publicidade no bus, enorme e chiquem meus alunos estão apaixonados por vc.!!!!Um abração!
Consuêlo Brito.Caruaru.
consuelo.brito@hotmail.com
Também me sinto assim, às vezes!

 
At 7:40 PM, Blogger Estevão Machado said...

Flávia...Meu nome é Estevão Moura e estou virando "habitué" do PALAVRAS CRUZADAS e do CAFÉ COM FILOSOFIA...

Muito lindo teu blog.Caridoso e cheio de vida.
Dá uma espiada no meu ( feito a seis mãos - com mais dois amigos )
http://diariodeandada.blogspot.com.br/2012/04/amemos.html

Até o próximo evento na Jaqueira! Abraços.

 

Postar um comentário

<< Home